Assistência a filho

É de noite, hora de deitar as crianças e, pois é, até tu dormes na boa a essa hora. Oito e meia? Nove? Queres lá saber, vamos todos dormir. Saltos, histórias, negociações para mais saltos e mais histórias até que finalmente está toda a gente na cama, tu na cama com o bebé já a mamar e a fechar os olhos.

“Mãe, tenho cocó…” pede a de três anos e sabes que vais ter de ir à casa de banho com ela, que a mais velha também se vai lembrar de querer mais alguma coisa e que o bebé, mesmo quaaaaaase, quaaaaaase a adormecer vai desatar aos gritos. Vais. Acontece tudo como tinhas esperado. Voltas para a cama, luzes apagadas.

Um jacto de vómito. Duas em três camas atingidas. O bebé está maldisposto.

O pai fica a gerir as camas e as miúdas, tu vais enfiar-te na banheira e ao puto. Mais gritos, ele a tremer de frio tu sem saberes se te secas, se o tiras da banheira, o que fazer à roupa toda vomitado que chega em barda ao chão…

Respiras fundo. Deixas as miúdas com o pai, vais dormir noutra cama e noutro quarto com o que está doente. Forras a cama com uma toalha. Ele quer mamar, de novo. Estamos despidos, o contacto da pele reconforta-nos, adormecemos. Pouco tempo depois ele contorce-se: novo jacto de vómito, acertou na cama apesar da toalha. Limpas como podes, ele está a cair de sono e cai mesmo sem que consigas limpar grande coisa. Adormeces: seja o que Deus quiser.

Esta cena repete-se umas quatro vezes durante a noite. Acordas, o cheiro a azedo na tua pele e cabelo vão ter de esperar, a mais velha tem que se preparar para a escola. Do alto dos seus seis anos já se vestiu e preparou a mochila sozinha, só está à espera do pequeno almoço quando chegas à cozinha. Entretanto desce o pai com a Teresa, vem bem disposta. Boa, não vomitou nem fez xixi na cama como nas duas últimas noites. Ninguém dormiu grande coisa, competimos com as olheiras. Mas pelo menos estão animados, felizmente deve ter sido só uma indisposição. Se calhar o pior já passou.

Vais tomar banho, de novo sentes-te gente. Sobreviveste, aguentaste e na máquina já rola a primeira leva de roupa.

O bebé quer colo, mama de novo. Está desconfortável: jacto de vómito. A tua roupa, o cabelo acabados de lavar…

Ligas para o trabalho: assistência à família.

Durante o dia sucedem-se os vómitos, vais rezando para que seja só ele. Que não desatem os três a vomitar as estopinhas.

Pode ser que amanhã ele já esteja bom, que já queira brincar, que já não precise de tanto colo e coma alguma coisa.

E tu? Tu vais trabalhar.

Neste tempo e neste país onde as leis e apoios de protecção à parentalidade apontam para escola mais cedo e mais tempo, os pais estão privados dos filhos. Os bebés são desmamados rapidinho, afinal as mães têm que se por em forma e aparecer saradonas em todos os aspectos o mais cedo possível. “Baby blues”, “mães galinha”? Tenham juízo, para isso existem os avós. Vão mazé trabalhar, encaixem, entrem na linha e não pensem demasiado.

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Ramalho

Quase com três anos, a Teresa enerva-se quando não percebemos à primeira o que diz. 

Agitada, queixava-se assim:

“A Diana mexeu no meu Ramalho!!”

Com o muito cuidado – não se quer agitar uma panela a ferver, certo? – pergunto:

“Que Ramalho?”

Na minha cabeça: risos, muitos risos.

Ela, pressentindo o óbvio, claro, começa a efurecer-se:

“No meu Ramalhooooo!!”

Continuo sem a menor pista de que raio é o Ramalho:

“Vá, Teresa, a mana não mexe mais, vamos lá ver se ficou estragado e se podemos arranjar?”

Ela:

“Não dá pra arranjar, tu disseste que os óculantes (esta já sabia: autocolantes) não se arranjam…”

Perante a pista fez-se luz, só há um lugar da casa cheio de autocolantes: o armário.

Teresa

Adormeceu no sofá. Fui de mansinho tapá-la: sorriu ainda de olhos fechados. Aquele sorriso universal de conforto. Aquela brisa da mantinha a cobrir o corpo encolhido do frio levantou-lhe um pouco do cabelo.

“Mãe…” sussurrou.

Capaz de derreter o mais duro coração.

20 quilos a mais

Não quero fazer a apologia da gordura, tão pouco justificar o aumento de peso com as alegrias da maternidade: “ah estou gorda, mas tenho os meus ricos filhos e isso basta-me” isto existe? Não para mim.

Os vinte quilos pesam-me na roupa que já não me serve, na sombra assustadora que vejo na areia da praia, no espelho da farmácia onde me olhei de longe e não me reconheci. Isto aconteceu mesmo. 

Não sei como vou estar amanhã, sequer se vou estar viva. Vivo descontente com a minha imagem há tanto tempo que já dei comigo a ver fotografias de há meia dúzia de anos e pensei: espera, aqui não estava gorda! Mas vivia como se estivesse.

Portanto, “aqui e agora” tenho saúde, tenho três pares de mini bracinhos sempre pendurados no meu pescoço a destilarem amor. Voltei a correr, todos os dias um bocadinho. Não desistir, não entrar em obsessões. Persistir.

Já agora, o puto deixava-me dormir e era o céu. Mas, vá, quem nunca acordou seis a oito vezes por noite durante quase seis meses?